Em junho de 2026 eu palestrei no Web Summit Rio, na Arena Senac. Levei para o palco algo que eu venho percebendo nos últimos tempos, trabalhando na fronteira entre moda e inteligência artificial desde 2019. A IA pode até parecer mágica. Num primeiro momento, você pensa que ela é genial. Mas com o tempo vai percebendo que ela é, na verdade, uma amplificadora: ela multiplica o que você coloca nela.
Se você não tem repertório, ela devolve genérico. Eficiente, mas igual ao que todo mundo está fazendo. Se você tem repertório, ela multiplica a sua autenticidade. Foi essa percepção que eu transformei em palestra naquela Arena, numa conversa sobre IA e Moda.
Lógica versus vestido. A maneira mais concreta de ver isso é comparar dois pedidos. Pense em um problema de lógica, um dashboard, uma automação. Peça para qualquer IA resolver. O resultado vem parecido, e funciona. Agora peça para essa mesma IA criar um vestido. Para fazer isso bem, você precisa saber pedir: tipo de gola, tipo de manga, tecido, comprimento, caimento, aviamento, modelagem, silhueta. Se você não sabe descrever, a IA devolve um vestido genérico. A diferença está no repertório de quem comanda, não na ferramenta.
A confissão. Eu vivi isso na pele. Teve uma época em que eu estava delegando toda a minha criação de conteúdo para a inteligência artificial, porque eu queria que tudo fosse mais rápido. Em algum momento percebi que eu não estava mais criando, estava só apertando botão, e o resultado tinha deixado de ser meu. A pergunta certa é qual parte delegar e qual parte manter.

Autoria, a parte que a moda sempre soube.
Designers sempre documentaram o processo, no sketchbook, no croqui, na ficha técnica. O trabalho nunca esteve só na peça final, sempre esteve no caminho até ela. Quem documenta cada decisão pode provar autoria. Documentar é mais que uma questão ética: é o que separa o autor do operador.
Como começar.
Quem está criando coisa autoral com IA hoje sabe pedir, sabe escolher, sabe rejeitar e sabe provar que é seu. A sugestão que eu deixo é a menos atalho de todas: aprendizado contínuo. Não pare de estudar, de construir repertório, de colocar a mão na massa.


